Macau leva a tribunal caso de segurança nacional que pressiona Portugal sobre proteção consular

Macau leva a tribunal caso de segurança nacional que pressiona Portugal sobre proteção consular
Macau desafia proteção consular

A aproximação do julgamento de Au Kam San em Macau intensifica a pressão diplomática sobre Portugal, num caso que expõe os limites da proteção consular a cidadãos com dupla nacionalidade. O antigo deputado pró-democracia, detido desde julho de 2025 sem contacto com a família, deverá avançar para uma queixa junto do grupo de trabalho das Nações Unidas sobre detenção arbitrária.

Destaques

  • Au Kam San permanece detido há 11 meses em Macau sob acusações de subversão e conluio com entidades externas, marcando o primeiro processo sob a revisão de 2023 da lei de segurança nacional.
  • Autoridades de Macau recusaram acesso do consulado português a Au Kam San, evidenciando fragilidade da proteção consular portuguesa para cidadãos com dupla nacionalidade na China.
  • Organizações e familiares denunciam violações da Declaração Luso-Chinesa de 1987, enquanto cresce pressão para reconsiderar a participação de magistrados portugueses no sistema judicial do território.

Detenção prolongada e recurso internacional iminente

Como noticiou o ThePortugalPost.com, Au Kam San entra no 11.º mês de detenção em Macau e será julgado no Tribunal Judicial de Base por alegada subversão do Estado e conluio com entidades externas para pôr em causa a segurança nacional.

Segundo a filha, Cherry Au, a família não fala diretamente com o antigo legislador há 340 dias, desde a operação em que agentes armados apareceram em casa sem aviso prévio, detiveram primeiro a mulher e depois Au Kam San, após buscas à residência. As informações recebidas chegam apenas por intermédio de uma assistente social nomeada pelo tribunal, com indicações breves sobre o seu estado.

Cherry Au afirma ainda que tentou contratar um advogado privado em Macau, mas o profissional terá sido impedido de aceder ao arguido e acabou por recusar o caso, alegando pressão das autoridades locais. Já Michael Polak, diretor da Justice Abroad, organização britânica que representa internacionalmente a família, considera a detenção claramente arbitrária e diz esperar apresentar uma queixa ao grupo de trabalho das Nações Unidas sobre detenção arbitrária.

A revisão de 2023 da lei de segurança nacional de Macau permite que juízes proíbam visitas a detidos em prisão preventiva para evitar divulgação de segredos de Estado. O processo de Au Kam San é o primeiro ao abrigo dessa versão revista da lei, tornando-se uma referência para futuros casos no território.

Impacto diplomático e dúvidas sobre cooperação judicial

O caso expõe também a fragilidade da proteção consular portuguesa em territórios administrados pela China para cidadãos com dupla nacionalidade. Michael Polak sustenta que o consulado português em Macau pediu acesso e recebeu uma recusa, enquanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal declara que não houve notificação oficial da detenção nem pedido de apoio consular.

O ministério afirma que os mecanismos de proteção são ativados a pedido do detido e acrescenta que, por Au Kam San ser também cidadão chinês, não está excluído que as autoridades locais limitem os procedimentos ao seu estatuto chinês. Como a China não reconhece a dupla nacionalidade, o caso reforça o risco de cidadãos portugueses com origem chinesa poderem ficar sem acesso efetivo à proteção consular em Macau ou na China continental.

A filha do arguido defende que a detenção viola a Declaração Conjunta Luso-Chinesa de 1987, que previa a manutenção de direitos e liberdades fundamentais em Macau até 2049. O caso soma-se a preocupações europeias mais amplas sobre o encolhimento do espaço para dissidência política na região, numa altura em que responsáveis da União Europeia já levantam o tema junto das autoridades de Macau.

Também cresce o debate sobre a presença de magistrados portugueses no sistema judicial do território. Polak pede ao Conselho Superior da Magistratura e ao Ministério da Justiça que reavaliem esse envolvimento, argumentando que a manutenção de arguidos incomunicáveis durante longos períodos e as restrições em processos de segurança nacional levantam sérias dúvidas sobre independência judicial e garantias de defesa.

Na nossa publicação anterior sobre a lacuna legal na reforma do Tribunal de Contas, explicámos que a CNPD alertou o parlamento para a ausência de regras claras sobre o tratamento de dados pessoais nos processos da instituição. O texto sublinhava que, sem um regime jurídico definido e sem um mecanismo de supervisão adequado, ficam em risco direitos como acesso, retificação e eliminação de dados, aumentando a pressão para que a proposta de lei inclua salvaguardas ou conduza a uma revisão da Lei 34/2009.

Este material pode conter opiniões de terceiros, nenhum dos dados e informações nesta página constitui aconselhamento de investimento de acordo com o nosso Aviso Legal. Embora sigamos rigorosos Padrões Editoriais, este post pode conter referências a produtos de nossos parceiros.