Fundação Gulbenkian reforça peso no sistema científico português aos 70 anos

Fundação Gulbenkian reforça peso no sistema científico português aos 70 anos
Gulbenkian impulsiona ciência

A Fundação Calouste Gulbenkian assinala 70 anos em 2026 num momento em que o financiamento privado continua a ter um papel central na ciência em Portugal. Com uma dotação de 4,02 mil milhões de euros e um novo instituto previsto para novembro de 2026, a instituição mantém influência num sistema de I&D ainda marcado por baixo investimento público.

Destaques

  • A Fundação Gulbenkian, criada em 1956, consolidou influência no sistema científico português ao investir €133,4 milhões anuais em programas e possuir uma dotação de €4,02 mil milhões.
  • O investimento público em I&D em Portugal permanece baixo, com apenas 0,29% do PIB e 0,68% do orçamento estatal alocados à área em 2024, dificultando alcançar a meta de 3% do PIB até 2030.
  • A fusão do IGC com o Instituto de Medicina Molecular em 2024 para criar o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine marca uma transição estratégica para distribuição de bolsas e articulação no ecossistema científico.

Modelo institucional molda sete décadas de ciência

Como destacou o ThePortugalPost, a trajetória da Gulbenkian mostra como a fundação construiu alternativas fora das estruturas universitárias para profissionalizar a investigação em Portugal. Criada em 1956, a instituição lançou o Instituto Gulbenkian de Ciência em 1961 com a aposta em carreiras científicas a tempo inteiro, sem obrigações letivas, numa fase em que os seus promotores consideravam o sistema universitário incapaz de se reformar por si próprio.

Esse modelo evolui ao longo das décadas. Depois de uma fase inicial mais dispersa, o instituto concentra-se em biologia e biomedicina a partir dos anos 1980, consolidando um padrão de exigência científica que, segundo o texto, influencia a academia portuguesa muito para além da própria fundação.

Nos anos 1990, a Gulbenkian volta a intervir com o programa de doutoramento informalmente conhecido como “super doutores”, desenhado para dar aos alunos maior autonomia na definição dos seus projetos. A reestruturação de 1998 aprofunda essa lógica ao recrutar investigadores jovens, portugueses e estrangeiros, com liberdade para testar ideias de risco e depois alimentar universidades e centros de investigação em Portugal e no exterior.

Segundo o texto, mais de 500 doutorados de programas ligados à Gulbenkian ocupam hoje posições de liderança científica em 23 países. Entre os nomes referidos estão Mónica Bettencourt Dias, Karina Xavier, Miguel Godinho Ferreira e Raquel Oliveira, num efeito de rede que amplia a presença internacional da ciência feita a partir de Portugal.

Baixo esforço público mantém relevância do capital privado

O peso da fundação destaca-se num contexto em que o investimento público em investigação continua limitado. O texto refere que, em 2024, o Estado aloca 0,68% do orçamento total à I&D e cerca de 0,29% do PIB ao esforço público nesta área, colocando Portugal entre os cinco países com menor nível na União Europeia.

Embora a despesa total em I&D suba de 802 milhões de euros em 2023 para 837 milhões em 2024, a prioridade relativa do setor diminui. O objetivo de atingir 3% do PIB em investimento em investigação até 2030 surge, assim, como difícil de cumprir sem uma aceleração expressiva do financiamento privado e público.

Neste enquadramento, a dotação de 4,02 mil milhões de euros da Gulbenkian e a despesa anual de programas de 133,4 milhões de euros, indicada para 2025, dão à fundação uma influência desproporcionada no ecossistema científico nacional. A fusão do IGC com o Instituto de Medicina Molecular em 2024, criando o Gulbenkian Institute for Molecular Medicine, também sinaliza uma mudança estratégica da gestão direta de laboratórios para a distribuição de bolsas, apoios e capacidade de articulação.

As comemorações dos 70 anos decorrem até dezembro de 2026 e incluem a reabertura do Museu Gulbenkian com entrada gratuita durante nove dias a partir de 18 de julho, concertos comemorativos e o lançamento de uma plataforma digital sobre sete décadas de bolsas e financiamentos. Em novembro, o novo Instituto Gulbenkian de Estudos Avançados estreia-se com uma aula inaugural de David Nirenberg, num teste à capacidade da fundação para renovar o papel que historicamente teve na criação de espaço para investigação mais autónoma em Portugal.

Na nossa publicação, analisámos os indicadores mais recentes de inovação em Portugal, que mostram uma descida da percentagem de empresas com atividades inovadoras entre 2022 e 2024 e a manutenção do país como “inovador moderado” no European Innovation Scoreboard 2026. Apesar de algum progresso em produtos inovadores e em áreas como colaboração e digitalização, o retrato apontava fragilidades no investimento empresarial, na propriedade intelectual e na produtividade, dificultando a transformação do conhecimento em escala económica.

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