Programa de renegociação de dívidas pode melhorar recuperação de crédito dos bancos, mas eleva risco de inadimplência futura

Programa de renegociação de dívidas pode melhorar recuperação de crédito dos bancos, mas eleva risco de inadimplência futura
Renegociação: recuperação e riscos

Em estudo pelo governo, um novo programa de renegociação de dívidas pode abrir espaço para que bancos recuperem parte de créditos considerados perdidos e para que consumidores negativados retornem ao mercado formal. A proposta ainda sem detalhes públicos também levanta dúvidas sobre seus efeitos de longo prazo na disciplina de pagamento e no custo do crédito.

Destaques

  • O programa de renegociação permite aos bancos vender carteiras de dívidas em atraso com desconto, gerando caixa imediato e liberando recursos para novas operações.
  • A iniciativa facilita a reinclusão financeira de consumidores negativados e monetiza créditos antes considerados de difícil recuperação, com efeito limitado sobre indicadores de inadimplência já provisionados.
  • Especialistas alertam para risco de moral hazard, pois renegociações frequentes podem estimular inadimplência futura e endurecimento na concessão de crédito pelos bancos.

Modelo em estudo e efeitos imediatos

Segundo InfoMoney, a proposta prevê a compra de carteiras de dívidas em atraso com desconto, criando um novo comprador para créditos problemáticos hoje mantidos pelos bancos. Esse mecanismo tende a oferecer uma alternativa para ativos com baixa perspectiva de recuperação e a gerar entrada de caixa sobre valores antes vistos como de difícil recebimento.

Para as instituições financeiras, o ganho mais direto está na monetização desses créditos, além da redução de custos de cobrança e da liberação de recursos para novas operações. Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, afirma que a medida permite transformar parte dessas perdas em recebimentos efetivos.

O programa também pode favorecer a reinclusão financeira de consumidores negativados, ao permitir sua volta ao mercado formal de crédito. Ainda assim, como boa parte dessas dívidas já é antiga e em muitos casos provisionada, o efeito sobre os indicadores de inadimplência tende a ser mais limitado do que o impacto financeiro da recuperação desses valores.

Risco para disciplina do crédito

Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, a medida funciona mais como uma limpeza de estoque de créditos problemáticos do que como uma mudança relevante nos indicadores correntes de inadimplência. O principal ponto de atenção está no chamado moral hazard, quando agentes assumem mais risco por acreditarem que não arcarão integralmente com as consequências.

Nesse cenário, renegociações frequentes e com descontos elevados podem levar parte dos devedores à percepção de que atrasar pagamentos e esperar um futuro perdão ou refinanciamento é economicamente vantajoso. Caso esse comportamento se espalhe, os bancos tendem a reagir com critérios mais duros de concessão, limites menores e spreads mais altos.

Por isso, especialistas avaliam que o resultado do programa depende de seu desenho. A leitura predominante é que a medida tende a ser positiva se ficar restrita a dívidas antigas, de baixa recuperação, e se vier acompanhada de critérios capazes de reduzir a reincidência da inadimplência.

Em nossa matéria anterior sobre a proposta do governo de comprar dívidas antigas com grande desconto, detalhamos o plano em estudo para adquirir passivos diretamente dos bancos com abatimentos que podem chegar a 95%. Também observamos que, após a compra, esses débitos poderiam deixar de ser cobrados e ser considerados quitados na prática, com foco em créditos já sem expectativa de recuperação, num contexto de inadimplência elevada entre as famílias.

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