Pesca costeira em Portugal enfrenta quebra geracional e pressão climática

Pesca costeira em Portugal enfrenta quebra geracional e pressão climática
Desafios da pesca costeira

A pesca artesanal na Costa da Caparica continua sob pressão de alterações climáticas, erosão costeira e falta de renovação de mão de obra, num setor que encolhe há décadas em Portugal. Entre os cerca de 175 profissionais da frota local, Tânia Graça destaca-se como a única mulher atualmente na pesca em mar aberto, num retrato da dificuldade crescente em manter a atividade.

Destaques

  • A frota da Caparica ficou em terra por dois meses consecutivos no início de 2026 devido a tempestades, o maior período de paragem em 47 anos.
  • O número de pescadores registados em Portugal caiu de 47.529 em 1982 para 14.125 em 2023, com nenhum jovem entrando na frota da Caparica na última década.
  • Em maio de 2026, foi realizada uma intervenção de emergência de 9 milhões de euros para depositar 1 milhão de metros cúbicos de areia em 3,9 km de costa entre São João da Caparica e Praia da Saúde, dificultando a pesca de linguado e agravando restrições operacionais.

Alterações no mar e quebra de rendimentos

Como noticiou o ThePortugalPost, a situação na Costa da Caparica expõe o agravamento simultâneo da escassez de pescadores e das mudanças ambientais que afetam a atividade. Tânia Graça, de 48 anos, entrou na pesca aos 39, depois de deixar o trabalho numa escola privada, e trabalha com o companheiro António Graça numa embarcação que opera entre a Costa da Caparica e Cascais.

O casal sai de casa entre as 04:00 e as 06:00 para recolher o barco em Docapesca, em Lisboa, e procura espécies como robalo, linguado, choco, dourada, sargo e corvina, de acordo com a época. No início de 2026, as tempestades de inverno mantêm a frota da Caparica em terra durante dois meses consecutivos, o período de paragem mais longo referido por António Graça em 47 anos de profissão.

Quando regressam ao mar em março, os dois pescadores relatam alterações no calendário habitual das capturas. Espécies como o robalo chegam semanas mais tarde do que no passado, enquanto peixes de águas mais quentes também surgem em momentos menos previsíveis, num padrão que coincide com alertas do Instituto Português do Mar e da Atmosfera sobre o aquecimento das águas e a deslocação de espécies para norte.

Impacto local na costa e no setor

A pressão climática soma-se à retração estrutural da profissão. Portugal tinha 14.125 pescadores registados em 2023, abaixo dos 47.529 registados em 1982, e, segundo pescadores locais citados no texto de origem, nenhum jovem entrou na frota da Caparica na última década.

O Governo avançou em janeiro de 2026 com o Estatuto do Jovem Pescador, que prevê apoios à formação, qualificação digital e crédito preferencial para atrair profissionais com menos de 40 anos. Ainda assim, a atividade continua marcada por forte exigência física, rendimentos dependentes das capturas e baixa presença feminina, sendo Tânia Graça apontada como a única pescadora em mar aberto nesta comunidade.

A erosão costeira acrescenta uma nova pressão operacional. Em maio de 2026, a Agência Portuguesa do Ambiente e a Administração do Porto de Lisboa lançam uma intervenção de emergência de 9 milhões de euros para depositar 1 milhão de metros cúbicos de areia num troço de 3,9 quilómetros entre São João da Caparica e a Praia da Saúde, concluída em meados de junho de 2026.

Segundo Tânia Graça, a maior presença de areia no mar dificulta a pesca do linguado, ao tornar a água mais turva e alterar o habitat de fundo. Ao mesmo tempo, a redução da largura da praia limita o espaço necessário para manusear redes e guardar material, enquanto a continuidade da erosão mantém sob pressão uma atividade que já enfrenta custos crescentes, quotas e menor disponibilidade de espécies tradicionais.

Na nossa publicação, acompanhámos a cooperação entre Portugal e Moçambique para reforçar o combate à pesca ilegal, não declarada e não regulamentada no oceano Índico, através da transferência de meios de fiscalização e sistemas de monitorização por satélite. O texto destacou ainda a criação de um centro regional de monitorização da SADC e a partilha de informação e conhecimento científico para proteger os stocks pesqueiros e melhorar a rastreabilidade do pescado.

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