Portugal mantém famílias monoparentais sob risco de perder abono com pequenas alterações de rendimento

Portugal mantém famílias monoparentais sob risco de perder abono com pequenas alterações de rendimento
Abono em risco para famílias

As famílias monoparentais em Portugal continuam a enfrentar a perda do abono de família quando registam pequenas mudanças no rendimento ou na composição do agregado. O problema atinge mães solteiras que fazem horas extra, regressam a casa dos pais ou voltam a casar, enquanto o Governo prepara uma Prestação Social Única com aprovação prevista até meados de 2026.

Destaques

  • Famílias monoparentais em Portugal perdem o abono de família com pequenas variações de rendimento devido a limiares rígidos e regras de elegibilidade restritas.
  • O Governo prepara a Prestação Social Única para integrar 13 apoios e simplificar acesso até meados de 2026, ajustando incentivos ao trabalho para evitar cortes abruptos.
  • Em 2026, o abono de família aumentará 2,2%, com apoio mensal de 190,98 euros no primeiro escalão e indexante dos apoios sociais fixado em 537,13 euros.

Critérios rígidos e reforma em preparação

Como noticiou o ThePortugalPost, vários agregados monoparentais estão a perder o abono de família não por terem alcançado estabilidade financeira, mas porque as regras da Segurança Social aplicam limiares de rendimento rígidos e passam a contar novos rendimentos do agregado, mesmo em situações de fragilidade económica.

Os casos descritos incluem mães que aceitam horas extraordinárias para pagar despesas médicas, mulheres que regressam à casa dos pais para evitar despejo e beneficiárias que deixam de receber apoio após novo casamento. Segundo juristas citadas no texto, basta ultrapassar um escalão por cêntimos para perder o direito, num modelo que continua a presumir estruturas familiares tradicionais e ignora vulnerabilidades específicas das famílias monoparentais.

O Provedor de Justiça alertou em fevereiro para o impacto destas regras, incluindo a perda automática do estatuto de monoparentalidade quando um filho mais velho deixa de receber prestação, mesmo que continue dependente. Até agora, o ministério não altera esse enquadramento.

Entretanto, o Governo finaliza a Prestação Social Única, que deverá reunir 13 apoios sujeitos a condição de recursos e seguir para o Parlamento em breve, com meta de aprovação até meados de 2026 no âmbito do PRR. A secretária de Estado da Segurança Social, Filipa Lima, afirma que a medida pretende simplificar o acesso, reduzir burocracia e criar um incentivo ao trabalho para evitar a perda imediata dos apoios quando o rendimento sobe, embora persistam dúvidas sobre os detalhes relativos aos limiares e à composição do agregado.

Impacto social e dimensão económica do problema

Em 2026, os valores do abono de família sobem 2,2% com efeitos retroativos a janeiro e o Indexante dos Apoios Sociais fixa-se em 537,13 euros. Nos agregados monoparentais do primeiro escalão, o apoio mensal por criança atinge 190,98 euros, enquanto a Garantia para a Infância tem valor de referência de 1.528 euros.

Apesar dessa atualização, a pressão financeira mantém-se elevada. As famílias monoparentais representam 18,5% do total em Portugal, após um aumento de 20,7% entre 2011 e 2021, e continuam mais expostas ao risco de pobreza e exclusão social, uma vulnerabilidade que também se observa no conjunto da União Europeia.

O texto compara ainda Portugal com modelos como o da Alemanha, onde pais solteiros acumulam abono, adiantamentos de pensão de alimentos em caso de incumprimento do outro progenitor e benefícios complementares para baixos rendimentos. No plano europeu, o Parlamento Europeu defende mais subsídios à renda, isenções fiscais e estruturas de acolhimento para estas famílias, mas não existe uma política única.

Para os residentes em Portugal, o efeito prático é imediato, já que mudanças como viver com familiares, voltar a casar ou receber um pequeno aumento salarial podem desencadear recálculo e corte do apoio. O desfecho da Prestação Social Única será, por isso, determinante para saber se o sistema passa a proteger melhor dezenas de milhares de famílias vulneráveis ou se mantém o atual risco de perda abrupta de rendimento.

Na nossa publicação anterior, acompanhámos a reta final das negociações sobre a reforma laboral em Portugal, centrada no pacote Trabalho XXI com mais de 100 alterações ao Código do Trabalho. O texto explicava os pontos mais controversos — como mudanças em contratos a termo, regras de greve e critérios para reconhecer vínculo laboral em plataformas — e alertava que, sem apoio sindical, o Governo poderia avançar para o Parlamento sem consenso, elevando a tensão social.

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