Tribunal de Lisboa suspende pena única de 13 anos de Ricardo Salgado por incapacidade clínica
A decisão do Tribunal Central Criminal de Lisboa redefine a execução das condenações aplicadas ao antigo presidente do BES nos processos EDP e Operação Marquês. A pena única de 13 anos mantém-se, mas fica suspensa porque o tribunal entende que o estado de saúde do arguido impede a compreensão do sentido e alcance da punição.
Destaques
- Tribunal de Lisboa agregou penas de seis anos e três meses e de oito anos, fixando cúmulo jurídico de 13 anos para Ricardo Salgado, mas suspendeu execução da pena por incapacidade clínica atestada em perícia de 11 de maio.
- Decisão mantém condenação de Ricardo Salgado nos casos EDP (suborno a Manuel Pinho, 2005-2009) e Operação Marquês (abuso de confiança, desvio de 10,7 milhões de euros em 2011), afastando cumprimento efetivo de prisão.
- O acórdão evidencia peso das perícias médicas na execução das condenações, criando distinção jurídica entre responsabilidade penal e impossibilidade de reclusão por limitações cognitivas e motoras.
Fundamentação judicial e avaliação clínica
Lê-se no acórdão a que a Lusa teve acesso que o coletivo de juízes presidido por Ana Paula Rosa considera que Ricardo Salgado é "propenso à prática" de factos semelhantes aos crimes pelos quais foi condenado, embora conclua que não existe perigosidade atual nem condições de saúde para cumprir pena em meio prisional.O tribunal sustenta que a ilicitude dos factos é muito elevada, atendendo ao modo de atuação do arguido, e usa essa avaliação como uma das bases para fixar o cúmulo jurídico em 13 anos, agregando as penas de seis anos e três meses e de oito anos. Ainda assim, decide suspender a execução da pena porque a doença de que Salgado padece impede uma compreensão plena do sentido e alcance da sanção e dos factos a ela associados.
A última perícia forense, datada de 11 de maio, conclui que o ex-banqueiro está incapaz de gerir o quotidiano de forma independente num estabelecimento prisional. Segundo o documento, as limitações cognitivas e motoras comprometem gravemente a sua autonomia e exigem acompanhamento para grande parte das atividades da vida diária.
Os juízes consideram ainda provado que Ricardo Salgado sofre de anomalia psíquica surgida depois da prática dos crimes e que essa condição é determinante para a sua incapacidade de compreender o sentido, o alcance e os efeitos da pena. O acórdão acrescenta que, apesar de poder conservar uma perceção muito genérica da existência de um processo judicial, essa noção não integra a relação entre os factos, a pena, a sua duração e a finalidade da execução.
Impacto do acórdão nos processos BES, EDP e Operação Marquês
A decisão mantém relevância no setor financeiro português por envolver o antigo líder do BES e um dos rostos centrais dos processos ligados ao Grupo Espírito Santo. Embora a suspensão da pena afaste, para já, o cumprimento efetivo da prisão, o tribunal não altera o juízo condenatório nem a gravidade atribuída à conduta.Ricardo Salgado foi condenado em dois processos distintos. No caso EDP, recebeu em 2024 uma pena de seis anos e três meses de prisão por corromper o antigo ministro Manuel Pinho, entre 2005 e 2009, para favorecer o Grupo Espírito Santo; na Operação Marquês, foi condenado em 2022 a oito anos de prisão por abuso de confiança, por ter desviado em 2011 um total de 10,7 milhões de euros do GES.
O acórdão reforça assim uma distinção com efeito jurídico relevante entre a confirmação da responsabilidade penal e a impossibilidade atual de executar a pena em contexto prisional. Para o sistema judicial e para o acompanhamento dos grandes processos económicos em Portugal, a decisão sublinha o peso que as perícias médicas podem ter na fase de execução das condenações.
A eventual saída da Fosun do capital do BCP voltou a ganhar destaque no setor financeiro, com o mercado a acompanhar a possibilidade de alienação dos 20,45% que o grupo chinês ainda detém no banco. Na nossa publicação anterior, também assinalámos que um eventual aumento da presença da banca espanhola em Portugal pode enfrentar obstáculos políticos e regulatórios, num contexto em que grupos espanhóis já representam cerca de um terço do mercado bancário nacional.
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