Portugal regista uma das maiores subidas da habitação entre economias desenvolvidas
O mercado residencial português mantém uma forte escalada de preços e agrava a pressão sobre famílias que tentam comprar casa ou suportar rendas e prestações mais elevadas. Em 2025, os preços da habitação em termos reais sobem 16,3%, muito acima da média da zona euro, enquanto a subida da Euribor reforça os custos do crédito à habitação.
Destaques
- Portugal regista um aumento real de 16,3% nos preços da habitação em 2025, o terceiro maior entre economias desenvolvidas segundo o Bank for International Settlements.
- As taxas Euribor a seis, doze e três meses sobem para 2,588%, 2,851% e 2,311% respetivamente em junho, pressionando prestações de crédito, com o mercado antecipando novo aperto do BCE.
- O Governo português introduz incentivos fiscais e redução de impostos para dinamizar a oferta, enquanto custos de construção sobem 4,7% e estrangeiros pagam em média mais 62% do que nacionais.
Escalada dos preços e pressão no crédito
Como noticiou o The Portugal Post, uma análise do Bank for International Settlements coloca Portugal como o terceiro mercado com maior subida real dos preços da habitação em 2025, atrás da Macedónia do Norte e da Hungria. O aumento de 16,3% deixa o país bem acima de outras geografias europeias, como Croácia, Espanha e Eslováquia, e contrasta com quedas registadas em economias como Finlândia, Luxemburgo e Áustria.O avanço dos preços ocorre apesar de um contexto externo mais fraco, marcado por menor apetite global pelo risco e por política monetária mais apertada na Europa. Ao mesmo tempo, a inflação na zona euro acelera para 3,2% em maio, enquanto em Portugal abranda ligeiramente para 3,1%, mas os preços alimentares continuam perto de 30% acima dos níveis anteriores à pandemia, comprimindo ainda mais os orçamentos familiares.
Para quem tem crédito à habitação com taxa variável, a subida recente da Euribor já tem efeito direto nas prestações. A taxa a seis meses, usada em 39,41% dos contratos para habitação própria permanente, sobe para 2,588% no início de junho, enquanto a taxa a 12 meses atinge 2,851% e a de três meses se fixa em 2,311%. O mercado continua a antecipar novo aperto do Banco Central Europeu, o que mantém a perspetiva de mais pressão sobre os encargos mensais das famílias.
Medidas públicas e impacto estrutural no mercado
O Governo português avança com incentivos para proprietários, compradores jovens, construção e arrendamento, numa tentativa de aumentar a oferta e moderar preços. Entre as medidas estão a redução da taxa autónoma de IRS sobre rendas para 10% em contratos até 2.300 euros por mês, isenções fiscais para imóveis destinados a arrendamento de longa duração, alargamento da isenção de IMT e imposto do selo para compradores até 35 anos e aplicação de IVA de 6% em certos projetos de construção e reabilitação.Bruxelas defende, porém, uma mudança mais estrutural na política fiscal da habitação. Nas recomendações mais recentes por país, a Comissão Europeia pede a Lisboa que desloque a carga fiscal das transações para impostos recorrentes sobre propriedade, sinalizando uma possível revisão do IMI e das avaliações patrimoniais, com o objetivo de colocar mais imóveis vazios ou subutilizados no mercado de arrendamento de longa duração.
Do lado da oferta, persistem entraves relevantes. Os custos de construção sobem 4,7% em fevereiro de 2026 e o intervalo entre licenciamento e conclusão continua a atrasar a entrada de novas casas no mercado por pelo menos 12 a 18 meses. Apesar da simplificação do RJUE e da meta de mobilizar 25.000 fogos através do Plano de Recuperação e Resiliência, a entrega de nova oferta continua abaixo do ritmo de valorização dos preços.
O quadro é agravado pelo prémio pago por compradores estrangeiros, que desembolsam em média mais 62% do que os compradores nacionais, sobretudo em Lisboa e no Porto. Ao mesmo tempo, o Banco de Portugal alerta para riscos de estabilidade financeira e avalia reduzir o rácio máximo entre empréstimo e rendimento de 50% para 45%, além de manifestar preocupação com maturidades de crédito que frequentemente ultrapassam 30 anos.
Com o crescimento económico de Portugal revisto pela OCDE para 1,8% em 2026, a evolução do mercado passa a depender da trajetória da Euribor, da rapidez de execução dos projetos financiados pelo PRR e da capacidade administrativa de municípios e autoridades fiscais para acelerar licenciamentos, atualizar valores patrimoniais e aplicar penalizações sobre imóveis devolutos. Sem uma resposta mais rápida do lado da oferta, o agravamento da acessibilidade à habitação continua a pesar sobre famílias e sobre o equilíbrio económico do país.
Na nossa publicação anterior sobre a decisão do TJUE relativa ao IMT em reestruturações societárias, explicámos que o tribunal considerou que estas operações internas de grupos empresariais não devem ser sujeitas a imposto quando assentam em participações de sociedades detentoras de imóveis. O acórdão, ligado ao caso da Nova Iberomoldes, tende a limitar a margem da Autoridade Tributária para emitir liquidações adicionais e pode influenciar litígios e arbitragens pendentes, com efeitos diretos na fiscalidade aplicada a ativos imobiliários em contexto empresarial.
- Forex
- Crypto