Portugal enfrenta riscos acrescidos de fraude no plano de recuperação de 16,6 mil milhões de euros

Portugal enfrenta riscos acrescidos de fraude no plano de recuperação de 16,6 mil milhões de euros
Risco de fraude em fundos

O sistema europeu que sustenta os fundos de recuperação usados por Portugal está sob pressão depois de auditores da UE identificarem falhas de desenho na prevenção da fraude. As conclusões aumentam a preocupação sobre a capacidade de detetar esquemas mais sofisticados, incluindo fraudes apoiadas por inteligência artificial, num momento em que o país canaliza 16,6 mil milhões de euros através deste quadro.

Destaques

  • Tribunal de Contas Europeu alerta que lacunas nos sistemas antifraude da Comissão Europeia fragilizam controles sobre o plano português de 16,6 mil milhões de euros.
  • Riscos de fraude em Portugal agravam-se devido à adoção de orientações europeias com fragilidades identificadas e à utilização crescente de inteligência artificial por redes criminosas.
  • Em 2025, o Ministério Público Europeu geria 3.602 casos ativos envolvendo 67 mil milhões de euros em fraude suspeita, sendo 68% relativos a fundos da UE, antecipando maior escrutínio sobre fundos em Portugal.

Auditoria europeia expõe fragilidades no controlo

Como noticiou o ThePortugalPost, o Tribunal de Contas Europeu conclui no Relatório Especial 18/2026 que o quadro de prevenção da fraude da Comissão Europeia tem lacunas na avaliação de risco e na monitorização, o que enfraquece a aplicação consistente das medidas entre os Estados-membros.

Os auditores reconhecem que a estratégia antifraude da Comissão, adotada em 2019 e atualizada com um plano de ação em 2023, segue boas práticas no papel. Ainda assim, consideram que a supervisão se concentra mais na execução das ações do que na medição dos seus resultados concretos, deixando por responder se a fraude está realmente a ser evitada ou apenas identificada depois de ocorrer.

O relatório também aponta falhas de coordenação institucional. Embora as responsabilidades estejam formalmente atribuídas, a articulação entre a Comissão e o OLAF mantém-se irregular, e os serviços da Comissão não usam de forma sistemática as conclusões do organismo antifraude para rever as suas próprias estratégias.

Uma das críticas mais fortes incide sobre a avaliação de risco. Segundo o tribunal, o mapeamento atual não é suficientemente robusto, o que reduz o valor estratégico de todo o sistema e pode deixar áreas de maior ameaça, como esquemas transfronteiriços ou fraude digital, com vigilância insuficiente.

Para Portugal, a questão ganha relevância adicional porque a Estratégia Nacional Antifraude, aprovada em julho de 2023 para o período 2023-2027, assenta em orientações europeias na definição dos seus planos de ação. Se o modelo de referência da UE apresenta debilidades, essas limitações podem refletir-se nas adaptações nacionais, apesar da coordenação interna da Inspeção-Geral de Finanças.

Impacto para Portugal e pressão sobre os fundos europeus

O Mecanismo de Recuperação e Resiliência, que financia o plano português de 16,6 mil milhões de euros, surge como uma das áreas mais vulneráveis. O texto refere que Portugal comunicou oito casos suspeitos de fraude ligados ao seu plano ao Ministério Público Europeu, mas os auditores alertam que sistemas de deteção desiguais entre países podem significar que parte relevante dos casos passe despercebida.

Os riscos aumentam com o uso crescente de inteligência artificial por redes criminosas. Deepfakes, identidades sintéticas, campanhas de phishing personalizadas e documentos manipulados tornam a fraude mais barata de executar e mais difícil de rastrear, enquanto bancos, seguradoras e autoridades reguladoras tentam reforçar defesas que ainda ficam atrás das ferramentas usadas pelos atacantes.

Também persistem problemas na partilha de informação entre OLAF, Ministério Público Europeu, Eurojust e Europol. No final de 2025, o Ministério Público Europeu tinha 3.602 casos ativos relacionados com um valor estimado de 67 mil milhões de euros em fraude suspeita, dos quais 68% diziam respeito ao uso indevido de fundos da UE.

Ao mesmo tempo, Bruxelas prepara uma resposta regulatória mais ampla. A Comissão espera adotar uma nova estratégia europeia anticorrupção no quarto trimestre de 2026, revê o regulamento financeiro para alargar o sistema de deteção precoce e exclusão a fundos de gestão partilhada e acompanha a entrada faseada do AI Act e do DORA, que apertam regras de transparência e resiliência digital para limitar ataques reforçados por inteligência artificial.

Para beneficiários portugueses de fundos europeus, incluindo empresas, municípios e entidades sem fins lucrativos, o resultado mais imediato pode ser um escrutínio reforçado. As conclusões dos auditores sugerem que a pressão para endurecer controlos vai aumentar, ao mesmo tempo que a exposição financeira do país mantém elevada a sensibilidade a falhas no sistema europeu de combate à fraude.

Na nossa publicação, detalhámos a operação “Token Out” da Polícia Judiciária, que levou à detenção em Lisboa de dois suspeitos por burla qualificada e branqueamento de capitais. O esquema recorria a smishing com mensagens que imitavam os CTT e o Continente para roubar credenciais bancárias, criar payment tokens e converter os valores em criptoativos, incluindo através de BitCards, tendo sido apreendidas criptomoedas como BNB, USDT e ASTER.

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