Abhijit Banerjee defende mais tributação sobre ricos e recursos da IA para reforçar o Estado-social

Abhijit Banerjee defende mais tributação sobre ricos e recursos da IA para reforçar o Estado-social
Tributar ricos e IA reforça Estado

O debate sobre desigualdade, financiamento do Estado-social e impacto da inteligência artificial no emprego ganha novo peso em Portugal com a passagem de Abhijit Banerjee pelo país. O Nobel da Economia de 2019 sustenta que tributar os mais ricos e os recursos consumidos pela IA pode criar margem orçamental para combater a pobreza e compensar perdas no mercado de trabalho.

Destaques

  • Abhijit Banerjee afirma que aumentar a tributação sobre os mais ricos pode fortalecer o financiamento de políticas sociais frente aos impactos económicos da inteligência artificial.
  • Banerjee defende a criação de mecanismos para taxar recursos usados pela IA, como a água consumida por centros de dados, inspirando-se em modelos ambientais como a taxa de carbono.
  • O economista alerta que a difusão da inteligência artificial ameaça empregos qualificados e pressiona governos a repensar políticas fiscais e laborais para financiar compensações sociais.

Propostas fiscais para desigualdade e IA

Em entrevista à agência Lusa, Abhijit Banerjee afirma que o aumento da tributação sobre os mais ricos pode dar ao Estado mais capacidade financeira para reforçar políticas sociais e responder aos efeitos económicos da inteligência artificial.

O economista, que participa na conferência NOVAFRICA da Nova SBE, argumenta que o objetivo não é reduzir o Estado-social, mas aumentar os seus fundos e aplicá-los de forma mais eficaz. Na sua avaliação, desde a pandemia de covid-19 sucedem-se choques que prejudicam os rendimentos das famílias mais pobres, num contexto em que os preços da alimentação sobem e as mudanças no mercado de trabalho travam a evolução dos rendimentos reais.

Banerjee defende também a criação de mecanismos para taxar recursos usados pela IA, em especial a água consumida por centros de dados. Segundo o economista, a forte expansão desta tecnologia leva empresas a instalarem infraestruturas em locais inesperados, aproveitando uma avaliação inadequada do preço de recursos escassos.

Como referência, aponta que já existem modelos de tributação ambiental, como a taxa de carbono, que podem inspirar soluções semelhantes para a água e outros insumos usados pela IA.

Impacto no emprego e pressão sobre políticas públicas

Na leitura de Banerjee, a difusão da inteligência artificial tem efeitos sociais potencialmente positivos, incluindo melhorias no acesso a cuidados de saúde para populações mais remotas. Ainda assim, alerta que a classe média enfrenta maior exposição à substituição de emprego, sobretudo em funções qualificadas como a contabilidade, enquanto atividades físicas, como a construção, tendem a ser mais difíceis de automatizar.

Esse cenário, defende, implica um custo acrescido para o Estado, que terá de compensar trabalhadores afetados pela perda de emprego. Por isso, considera necessário pensar seriamente em formas de taxar a IA, associando essa receita ao financiamento de respostas sociais e laborais.

O economista sustenta ainda que o problema central no combate à desigualdade não está na falta de políticas, mas na dificuldade de fazer chegar os apoios às pessoas certas. Como exemplo, refere estudos em Espanha que mostram que muitos cidadãos pobres não acedem a subsídios porque os processos são demasiado complexos.

Banerjee recebeu o Nobel da Economia de 2019 com Esther Duflo e Michael Kremer, distinção atribuída pela abordagem experimental ao combate à pobreza global. O seu alerta reforça a pressão sobre governos e empresas para ajustarem políticas fiscais e laborais à expansão acelerada da inteligência artificial.

Na nossa publicação anterior sobre a reforma da Prestação Social Única (PSU), analisámos o debate parlamentar em torno da fusão de 13 apoios sociais num único mecanismo ligado a verbas do PRR. O texto destacava a contestação às regras de condicionalidade — incluindo a exigência de até 15 horas semanais de atividades comunitárias — e a incerteza gerada pela ausência de um valor de referência definido, num calendário apertado para entrada em vigor em 2026.

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