Consultoras de sustentabilidade ganham espaço em Portugal com procura crescente das PME

Consultoras de sustentabilidade ganham espaço em Portugal com procura crescente das PME
Sustentabilidade em alta nas PME

A pressão para tornar os modelos de negócio mais sustentáveis está a intensificar a procura por consultoria especializada entre as empresas portuguesas, sobretudo entre as PME. Num mercado em expansão, a necessidade de estratégia, execução e acesso a incentivos está a reforçar o papel destas firmas no apoio à competitividade e à adaptação regulatória.

Destaques

  • A procura por consultoria de sustentabilidade em Portugal está a crescer, impulsionada por exigências regulatórias, cadeias de valor e riscos operacionais, especialmente entre PME.
  • A The Equator Company surge como um dos maiores grupos nacionais após fusão de quatro consultoras e lidera mais de cem projetos em 30 países a partir de Lisboa.
  • PME enfrentam dificuldades para estruturar investimentos devido a escassez de recursos, sistemas de incentivos sobrepostos (PT2030, PRR, Fundo Ambiental) e carência de benefícios fiscais direcionados para sustentabilidade.

Expansão da oferta e obstáculos no terreno

A Jornal de Negócios, a procura por apoio técnico em sustentabilidade está a aumentar em Portugal, à medida que mais empresas tentam responder a exigências regulatórias, pressões das cadeias de valor e riscos operacionais. Esse movimento está a impulsionar a atividade de consultoras especializadas, que trabalham desde a definição estratégica até à montagem de candidaturas a financiamento e à execução dos projetos.

A The Equator Company, criada a partir da fusão da S317 Consulting, Sair da Casca, Engidro e Factor Social, apresenta-se como um dos maiores grupos de consultoria em sustentabilidade em Portugal. Segundo o CEO Filipe Vasconcelos, a empresa nasce para agregar diferentes valências e responder a um contexto em que a sustentabilidade deixa de ser apenas um tema de conformidade e passa a ser vista como fator de resiliência.

A partir de Lisboa, a consultora desenvolve mais de uma centena de projetos em mais de 30 países. Em Portugal, Filipe Vasconcelos defende que o principal défice das empresas é muitas vezes estratégico, com clientes a procurarem orientação para manter competitividade em mercados globais, reduzir pegada ambiental, reorganizar operações e, em setores como o agrícola, diversificar zonas de produção para responder a choques climáticos e regulatórios.

Para as PME, que representam 90% do tecido empresarial português, esta transição tende a ser mais exigente. A limitação de recursos internos, a concentração de funções na gestão e a complexidade na combinação de instrumentos de apoio tornam mais difícil estruturar investimentos de sustentabilidade com impacto duradouro.

Financiamento, incentivos e pressão competitiva

Rita Costa, diretora de inovação da The Equator Company, afirma que muitas empresas médias continuam a olhar para fundos de forma isolada, em vez de partirem de uma estratégia global e só depois escolherem os instrumentos adequados para a implementar. Na sua leitura, medidas avulsas podem gerar resultados imediatos, mas tendem a falhar no médio e longo prazo se não estiverem integradas numa visão mais ampla de competitividade.

Filipe Vasconcelos considera que o problema não é a ausência de financiamento, mas sim a dificuldade em definir estratégia e navegar um sistema de incentivos complexo. O gestor aponta ainda para sobreposição entre instrumentos como o PT2030, o PRR e o Fundo Ambiental, o que, na sua perspetiva, reflete falta de coordenação do lado do Estado sobre quem financiar e em que moldes.

Já a Aliados Consulting, sediada em Santo Tirso, tem uma leitura diferente sobre os entraves ao investimento. O co-CEO João Pedro Pinto defende que ainda existem poucas oportunidades dedicadas para apoiar projetos de sustentabilidade e dá como exemplo o passaporte digital do produto, exigência regulamentar da União Europeia que entra em vigor no próximo ano e que deverá implicar investimento relevante para muitas empresas industriais.

Apesar de referir o anúncio do IAPMEI sobre um futuro incentivo financeiro para esta área, João Pedro Pinto sugere a criação de um benefício fiscal específico para sustentabilidade, à semelhança do SIFIDE. Num contexto em que Portugal tem seis empresas no ranking de 2026 das mais sustentáveis do mundo da Time com a Statista, o desafio passa agora por alargar essa capacidade de resposta às PME, que continuam a enfrentar maiores barreiras de escala, financiamento e execução.

Na nossa publicação anterior sobre o programa Comunidades de Energia Gulbenkian, explicámos como o apoio pretende acelerar projetos locais de produção e partilha de eletricidade renovável, com financiamento até 30 mil euros por iniciativa e componente de capacitação. O texto também destacou que, apesar do interesse crescente, a expansão das comunidades de energia em Portugal tem sido travada por obstáculos práticos, sobretudo dificuldades de acesso a financiamento e baixa formalização destes modelos.

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