Portugal mantém excedente na Segurança Social enquanto pressão das pensões aumenta
O sistema de proteção social em Portugal termina 2024 com um excedente recorde de 5,6 mil milhões de euros, ao mesmo tempo que pensões e saúde concentram mais de três quartos das prestações pagas. O peso do envelhecimento demográfico mantém-se no centro das contas públicas, num contexto em que a idade legal da reforma sobe para 66 anos e 9 meses em 2026.
Destaques
- A despesa total com proteção social em Portugal atinge 23,2% do PIB em 2024, com pensões absorvendo 56,1% desse valor, acima da média europeia.
- O excedente da Segurança Social sobe para 5,6 mil milhões de euros em 2024 e poderá atingir 6,7 mil milhões em 2025, impulsionado por receitas de contribuições crescentes.
- A Comissão Europeia alerta para riscos de sustentabilidade no médio prazo, projetando despesa com pensões em Portugal a chegar a 15,1% do PIB até 2045.
Peso das pensões nas contas de 2024
Como noticiou o The Portugal Post, com base em dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, as prestações de velhice e de doença dominam a proteção social em 2024, representando 47,8% e 28% do total, respetivamente. Esta concentração acompanha o perfil demográfico do país, com 23,7% da população já com 65 ou mais anos, o que coloca Portugal como o segundo país mais envelhecido da União Europeia, atrás de Itália.A despesa total com proteção social atinge 23,2% do PIB em 2024, acima dos 22,5% do ano anterior. Em termos per capita, a despesa sobe para 6.344 euros, mais 503 euros do que em 2023, enquanto os benefícios sociais por residente avançam para 5.894 euros, face a 5.434 euros.
Os custos com pensões alcançam 37,7 mil milhões de euros em 2024 e absorvem 56,1% da despesa total de proteção social, acima da média da União Europeia de 44,2%. Só as pensões de velhice representam 78,5% da despesa total com pensões, numa tendência associada à expansão do número de reformados por idade, mesmo com o total de pensionistas a recuar 2,4% na comparação com há uma década, para 2,94 milhões.
Do lado da receita, a Segurança Social arrecada 79,5 mil milhões de euros em 2024. As contribuições das administrações públicas representam 42,5% do total, seguidas pelas contribuições patronais, com 30,9%, e pelas contribuições dos trabalhadores, com 16,6%.
Impacto económico e pressão futura no sistema
O saldo positivo mantém-se desde 2004, mas o excedente de 5,6 mil milhões de euros em 2024 destaca-se pela dimensão. O desempenho resulta de um aumento de 10,3% nas contribuições de empregadores e trabalhadores, embora a despesa efetiva com pensões chegue a 24 mil milhões de euros, 1,2 mil milhões acima do orçamento, devido a atualizações pela inflação e reforços extraordinários.Os dados preliminares de 2025 apontam para novo aumento do excedente, para 6,7 mil milhões de euros, com as receitas a crescerem 8,4% e a despesa 6,2%. O Conselho das Finanças Públicas atribui esta evolução ao mercado de trabalho, com salários médios mais altos, maior nível de emprego e aumento do número de trabalhadores estrangeiros a descontar para o sistema.
Apesar do atual alívio orçamental, a pressão estrutural mantém-se. A idade legal da reforma chega a 66 anos e 9 meses em 2026 e já está previsto novo aumento para 66 anos e 11 meses em 2027, refletindo a ligação automática à esperança de vida. A reforma antecipada também enfrenta penalizações mais pesadas, com o fator de sustentabilidade a subir para 17,63% em 2026, além do corte de 0,5% por cada mês de antecipação, salvo exceções para carreiras contributivas muito longas.
No plano político, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social recebe em julho de 2026 um relatório de sustentabilidade, mas a ministra Rosário Palma Ramalho afasta uma reforma estrutural das pensões na atual legislatura. O Governo avança antes com medidas direcionadas, incluindo a Prestação Social Única, aprovada em maio de 2026 para agregar 13 apoios não contributivos, e com o Ciclo Contributivo Simplificado, que passa a ser obrigatório para todos os empregadores em janeiro de 2027.
O enquadramento europeu mantém o tema sob vigilância. A Comissão Europeia alerta para pressão de sustentabilidade a médio prazo e projeta que Portugal possa atingir uma despesa com pensões equivalente a 15,1% do PIB até 2045. Ao mesmo tempo, as pensões privadas complementares continuam residuais, com apenas 0,3% do PIB, o que reforça a dependência das famílias do sistema público e aumenta o risco orçamental concentrado no Estado.
Na nossa publicação, já analisámos a estrutura da proteção social em Portugal em 2024, destacando o forte peso das pensões e das prestações associadas à velhice e à doença nas contas do sistema. Nesse contexto, assinalámos que as receitas totalizaram 79.514 milhões de euros e a despesa 72.236 milhões, com as pensões a representarem 56,1% das prestações sociais, acima da média da União Europeia.
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