Tribunal da Relação analisa litígio laboral sobre sucessão no estaleiro de Viana do Castelo
Mais de uma década após o fecho dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, o conflito judicial de antigos trabalhadores sobre a subconcessão do estaleiro entra na fase de recurso em Portugal. O caso pode redefinir como a lei laboral portuguesa se aplica à transmissão de ativos públicos para operadores privados em processos de reestruturação.
Destaques
- Oito antigos trabalhadores da ENVC recorreram da decisão que negou a transferência automática para a West Sea Shipyard após subconcessão ao grupo Martifer até 2031.
- A sentença de primeira instância limitou a responsabilidade do Estado às indemnizações de 2013, que abrangeram 609 trabalhadores e custaram 30,1 milhões de euros.
- Decisão do Tribunal da Relação pode criar precedente relevante para riscos de passivos laborais retroativos em futuras concessões de infraestruturas em Portugal.
Recurso centra-se na transmissão do estabelecimento
Como noticiou o ThePortugalPost, o Tribunal da Relação vai apreciar o recurso apresentado em abril por oito antigos trabalhadores da extinta ENVC, após uma decisão desfavorável do Tribunal do Trabalho de Viana do Castelo em 9 de março. Os autores defendem que deveriam ter sido transferidos automaticamente para a West Sea Shipyard quando o Estado subconcedeu as instalações ao grupo Martifer até 2031.No centro do litígio está o artigo 285.º do Código do Trabalho, que prevê a passagem dos trabalhadores quando uma unidade económica muda de mãos. Os antigos funcionários alegam que a transferência do estaleiro, do equipamento e dos contratos configurou essa situação, enquanto o tribunal de primeira instância entendeu que não houve transmissão de uma unidade económica autónoma, uma vez que a ENVC foi formalmente liquidada antes da subconcessão.
A sentença também limitou a responsabilidade do Estado às indemnizações acordadas em 2013, num programa que abrangeu 609 trabalhadores e custou 30,1 milhões de euros ao Tesouro. Os autores procuram uma solução mais ampla, incluindo o reconhecimento de direitos de reintegração e compensação adicional.
Impacto para concessões e mercado laboral
A ENVC operou durante quase 70 anos e encerrou atividade em abril de 2014, depois de pressão relacionada com uma investigação da Comissão Europeia sobre 181 milhões de euros em apoios estatais concedidos entre 2006 e 2011. Em outubro de 2013, a Martifer venceu o concurso para explorar o estaleiro mediante uma renda anual de 415 mil euros, num modelo de subconcessão adotado pelo Estado em vez de uma reprivatização total.A decisão da Relação pode ter efeito para além do caso de Viana do Castelo. Para os trabalhadores, o acórdão vai mostrar se os tribunais portugueses interpretam de forma lata a transmissão de estabelecimento em processos de concessão e reestruturação; para empresas e entidades públicas, uma eventual reversão da sentença pode aumentar o risco de passivos laborais retroativos em futuras concessões de infraestruturas.
Sob gestão privada, o estaleiro expandiu a atividade de reparação e manutenção naval e reforçou o seu peso na economia regional, mas os oito autores sustentam que esse crescimento ocorreu sem o cumprimento das obrigações laborais que, no seu entender, decorrem da lei. O processo, que já soma 13 volumes, ainda aguarda calendarização no tribunal de recurso e poderá prolongar-se por vários anos, com possibilidade de subida ao Supremo Tribunal de Justiça.
Na nossa publicação, acompanhámos a votação do pacote laboral Trabalho XXI no parlamento português, num contexto de governo em minoria e negociações decisivas para fechar o texto final. No artigo, destacámos propostas como o alargamento dos contratos a termo, o regresso do banco de horas, mudanças em regras de despedimento e reforços em direitos parentais, bem como a contestação sindical e os potenciais efeitos no mercado de trabalho.
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