Polícia Judiciária desmantela rede de cibercrime de 140 milhões de euros entre Portugal e Espanha

Polícia Judiciária desmantela rede de cibercrime de 140 milhões de euros entre Portugal e Espanha
Rede de cibercrime desfeita

Uma operação transfronteiriça centrada em Portugal expõe a escala financeira de esquemas digitais que afetam empresas e particulares em vários mercados. A investigação leva a quatro detenções e já permite recuperar mais de 3 milhões de euros, num processo que também evidencia fragilidades nos controlos de transferências e no combate ao branqueamento de capitais.

Destaques

  • Polícia Judiciária e Polícia Nacional de Espanha desmantelam rede de cibercrime que desviou 140 milhões de euros e operava em três continentes.
  • Operação conjunta resulta em quatro detenções, apreensão de mais de 170 smartphones e 15 computadores usados para milhares de transferências fraudulentas por 800 contas bancárias e 120 empresariais.
  • Autoridades congelam 3 milhões de euros, mas recuperação dos ativos permanece difícil devido à dispersão de fundos por estruturas offshore, especialmente no Panamá.

Operação ibérica expõe estrutura do esquema

Segundo The Portugal Post, citando a Polícia Judiciária, uma rede de cibercrime que, segundo a investigação, desvia 140 milhões de euros em três continentes, foi desmantelada, com operações coordenadas a partir de cidades portuguesas e ramificações até ao Panamá. A ação é conduzida em coordenação com a Polícia Nacional de Espanha, a Europol e a Interpol, e resulta em quatro detenções, incluindo o alegado líder em Vila Nova de Gaia e um cúmplice no Porto.

As autoridades descrevem três vetores principais de ataque. As falsas plataformas de investimento atraem vítimas com promessas de retornos garantidos, enquanto ataques de interceção de comunicações permitem alterar dados de transferências entre clientes bancários e instituições financeiras sem que as partes detetem de imediato a fraude.

O terceiro eixo é a fraude do falso CEO, responsável por 61 milhões de euros das perdas totais. Neste método, os criminosos estudam hierarquias empresariais e fazem-se passar por executivos para ordenar transferências urgentes, explorando a pressão interna e contornando protocolos normais de autorização.

Em Portugal, a Diretoria do Norte da Polícia Judiciária executa mandados de busca e detenção emitidos por autoridades judiciais espanholas. Em simultâneo, a operação em Espanha apreende mais de 170 smartphones e 15 computadores alegadamente usados para realizar milhares de transferências fraudulentas e para dispersar fundos por 800 contas bancárias e 120 contas empresariais.

Impacto para empresas, banca e recuperação de ativos

Os investigadores identificam 67 pessoas na Europa que atuam como "mulas de dinheiro", transferindo fundos ilícitos entre contas em troca de comissões. A estrutura, apoiada por contas recetoras associadas a empresas de fachada, permite mover valores em poucas horas entre várias jurisdições e dificulta o congelamento atempado dos montantes.

Portugal surge como base operacional relevante devido à integração no espaço Schengen e à solidez da sua infraestrutura bancária, fatores que, neste caso, também facilitam a circulação rápida de dinheiro para destinos como Chipre ou Malta. A investigação aponta para 94 milhões de euros em fluxos financeiros diretos identificados, aos quais se somam 61 milhões de euros ligados à fraude do falso CEO, perfazendo o total de 140 milhões de euros referido pelas autoridades.

Para o tecido empresarial português, sobretudo pequenas e médias empresas, o caso reforça a necessidade de dupla autorização em transferências, verificação independente de instruções recebidas por email e formação de equipas contra engenharia social. No caso dos particulares, a validação prévia de plataformas de investimento junto da CMVM é uma das principais barreiras contra fraudes deste tipo.

A recuperação dos ativos continua a ser um desafio. Embora as autoridades já congelem 3 milhões de euros para eventual restituição às vítimas, o rastreio de fundos através de estruturas offshore, incluindo no Panamá, pode prolongar processos judiciais e cíveis durante anos.

Na nossa publicação anterior, analisámos o reforço da fiscalização tributária em Portugal em 2025, com a Autoridade Tributária e Aduaneira a concluir milhares de processos e a identificar centenas de milhões de euros em riqueza ilícita. O texto destacou ainda o aumento do acesso a registos bancários e a dimensão transfronteiriça de muitos esquemas, com uso de sociedades instrumentais e fluxos financeiros entre várias jurisdições, incluindo destinos offshore.

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